
Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
Mário Quintana
Aquele jeito que você me olhou,
Varreu meu pensamento.
Todas as coisas saíram do chão.
E eu me esqueci de tudo...
E antes que eu me desse conta,
Já era seu o meu querer.
Foi como o sol que desponta.
Uma montanha dourada, na terra do faz de conta
Prá me banhar de prazer.
Mas o vazio que você deixou em mim,
Quase transbordou meu coração...
Meu mundo ficou mudo.
Você foi prá tão distante,
e eu quero tanto te ver...
Por isso, não se espante
se numa noite bela,
Aquela estrela brilhante, em sua janela bater!
Vander Lee

Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.
As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.
Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.
Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.
Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.
Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,
Arrancar-me á vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.
Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?
Cecília Meireles

"... Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.
Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto...
... Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.
... para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam."
Caio Fernando de Abreu

"Não importa o lugar, não importa dia e hora.
Dia chegará que os olhares se tocarão
E num instante infinitesimal
Dois espíritos se verão completamente inebriados
Pelo reconhecimento súbito de um amor antigo..
E no reconhecimento desse amor,
Seus espíritos se reconhecerão
Na inebriante experiência do amor.
Se tocarão como o vento,
Superando as incertezas do mundo..."
(desconheço a autoria)
"Sim.
Todos os poemas
São de amor.
Pela rima,
Pelo ritmo,
Pelo brilho
Ou por alguém,
Alguma coisa,
Que passava
Na hora
Em que a vida
Virava palavra."
...
Mas enquanto isso
Vem brincar comigo
vamos até onde
Possa ser só riso
Possa ir tão longe
Possa ser tão lindo
Pode ser brinquedo
Pode ser tão sério


"Tento me concentrar numa daquelas sensações antigas
como alegria ou fé ou esperança.
Mas só fico aqui parada, sem sentir nada,
sem pedir nada, sem querer nada."
"Parece incrível ainda estar viva quando já não se acredita em mais nada.
Olhar, quando já não se acredita no que se vê.
E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite.
E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher
como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total.
Até a próxima morte..."
"Essa morte constante das coisas é o que mais dói..."
Caio Fernando Abreu

Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
Fernando Pessoa
Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu, quero te servir a poesia
numa concha azul do mar ou
numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer, não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas deste
pequeno poema, o verso;
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo!!
Cora Coralina
" Há dias cheios de vento, há dias cheios de raiva... há dias cheios de lágrimas. Mas depois... há dias cheios de amor, que nos dão coragem de ir em frente em todos os dias da nossa vida! "
M. Batagglia

Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.
Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração
Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.
Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.
Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta
Vinícius de Moraes
Meu coração que voava
Ficou surpreso
A boca se fechou, a música
Descaiu num tom menor
Meu corpo que retornava
Ao que nunca tinha sido
(senão em nostalgia)
retoma o que sempre fingiu ser.
Ficámos á espera, minha vida e eu
(sem amargura mas desconcertadas)
de que apagues os parêntesis
e voltes, e te permitas
as ternuras, o encanto, as surpresas
que iluminava (como os meus)
teus próprios dias
Lya Luft

Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.
Rita Apoena
Menos pela cicatriz deixada,
uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou,
e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer,
embora lateje louca nos dias de chuva.
Caio Fernando de Abreu
(Ganhei da Iris esse livro...rss
obrigada)
Rita Apoena

Ficaram se olhando.
Completamente dourados, olhos úmidos.
Seria a brisa? Verão pleno solto lá fora.
Bem perto dela, ele perguntou:
- O quê?
Ela disse:
- Sim.
Puxou-o pela cintura, ainda mais perto.
Ele disse:
- Você parece mel.
Ela disse:
- E você, um girassol.
Estenderam as mãos um para o outro.
No gesto exato de quem vai colher um fruto completamente maduro.
Caio F. de Abreu
Quem - estando ausente - entra no quarto
quem deita ao lado meu, quem passa
no meu coração seus lábios quentes, quem
desperta em mim as feras todas
quem me rasga e cura
quem me atrai?
Quem murmura na treva e acende estrelas
quem me leva em marés de sono e riso
quem invade meu dia após a noite
quem vem - estando ausente -
e nunca vai?
Lya Luft
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Simples Дหα
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