Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos...e serei feliz...
E hei-de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei-de depois
relembrar o passado de nós dois...
esse passado que começa agora...
Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás-de escutá-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...
Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás-de um dia mais tarde, revivê-los nas
lembranças que a vida não desfez...
E ao lê-los...com saudade em tua dor...
hás-de rever, chorando, o nosso amor,
hás-de lembrar, também, de quem os fez...
Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...
Quando lá novamente, então tu fores,
podes colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.
José Guilherme de Araújo Jorge

Me deixaram sozinho no meio do circo
Ou era apenas um pátio uma janela uma rua uma esquina
Pequenino mundo sem rumo
Até que descobri que todos os meus gestos
Pendiam cada um das estrelas por longos fios invisíveis
E havia súbitas e lindas aparições como aquela das longas tranças
E todas imitavam tão bem a vida
Que por um momento se chegava a esquecer a sua cruel inocência de bonecas
E eu dizia depois coisas tão lindas
E tristes
Que não sabia como tinham ido parar na minha boca
E o mais triste não era que aquilo fosse apenas um jogo cambiante de reflexos
Porque afinal um belo pião dançante
Ou zunindo imóvel
Vive uma vida mais intensa do que a mão ignorada que o arremessou
E eu danço tu danças nós dançamos
Sempre dentro de um círculo implacável de luz
Sem saber quem nos olha atenta ou distraidamente do escuro...
Mário Quintana

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.
Assim acontece com a gente.
As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira.
São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa.
Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo.
O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor.
Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo!
Sem fogo o sofrimento diminui.
Com isso, a possibilidade da grande transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer.
Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela.
A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.
Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar.
Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura.
No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva.
Não vão dar alegria para ninguém.
Rubem Alves

Queria realmente ser um anjo
Ser o anjo que vela, o anjo que guarda, o anjo que proteje
Quebrar todas as barreiras elementares e ser apenas
Um anjo
Mas não é permitido, a um anjo
Amar uma única pessoa
Seu amor não pode ser exclusivo
Seu amor deve ser extensivo
Não é permitido a um anjo
Chorar por todas as pessoas
Seu pranto é exclusivo
Suas lágrimas devem regar, uma por vez
As flores que brotam em cada alma humana
Que anjo posso ser?
Que amor poderei dar?
Que olhos me irão ver? A quem irei amar?
Queria realmente ser um anjo
Ter a bondade na face, a sabedoria no olhar
Saber sorrir, saber confortar
Saber entender os aflitos, saber ensinar
Ir ao encontro de todos
E a todos, amar
Queria realmente ser um anjo
Um anjo qualquer, um anjo comum
Atender as preces dos necessitados
Atender a procura de afecto de uma criança
Um anjo que aprende com a dor, um anjo que aprende com o amor
Queria realmente ser um anjo
Sorrir ao ver a ventura do vencedor
Se emocionar com o desespero do perdedor
Beijar a face daquele que suplica
E aplacar a raiva do inimigo cruel
Por fim, queria realmente ser um anjo
E poder quebrar todas as regras celestiais
Sentir o amor único e exclusivo
E chorar por todos os demais
Queria somente ser, um anjo
Amar, e nada mais...
...desconheço autoria...
Creio que te esqueci... de agora em diante
já não há nada entre nós dois, não há,
- achaste-me orgulhoso e intolerante
e eu te achei menos fútil do que má...
Foi um momento só... foi um instante
essa nossa ilusão, e hoje, onde está
aquele amor inquieto e delirante ?
- Bem que pensava: - é falso ! morrerá !
Sinto apenas que tenha te adorado,
e que hoje sofra em vão, inutilmente
procurando apagar todo o passado...
Digo que esqueço... que não penso em ti!
- Mas não te esqueço nunca, e justamente
porque fico a pensar que te esqueci.
J. G. de Araújo Jorge

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo muito ensinou.
Ensinou a amar a vida
e não desistir da luta,
recomeçar na derrota,
renunciar a palavras
e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos
e ser otimista.
Creio na força imanente
que vai gerando a família humana.
Numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana,
na superação dos erros
e angústias do presente.
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher tudo fácil.
Antes acreditar do que duvidar
"A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver."
Cora Coralina
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